A cena acontece no restaurante Maxim's de Paris, no início do século XX. Um casal está sentado lado a lado num sofá de veludo vermelho, típico da decoração deste lendário estabelecimento. Ao lado, destaca-se um imponente balde prateado sobre o qual se reflete a luz dourada das ricas luminárias. Estamos numa das casas mais badaladas de Paris. Emerge do balde o colarinho dourado inconfundível de uma garrafa de champagne.
Olhos nos olhos, captando toda energia emitida pelo outro, eles parecem ter entrado numa outra dimensão, envolvidos num ritual de sedução. Até que ponto o clima é resultado das borbulhas euforizantes desse néctar conquistador? A alegria que o champagne proporciona torna todo ser humano mais humano, e mais sensual; a Marquesa de Pompadour (1721-1764), favorita do rei Louis XV, já dizia que deixava as mulheres mais lindas.
Os especialistas, na sua maioria, concordam com a tese segundo a qual essa poção mágica nasceu há cerca de 360 anos, pelas mãos (e também pelo nariz) do monge enólogo Dom Pérignon (1668-1715). A verdade é que o fenômeno da "champagnização" (ação das leveduras numa segunda fermentação do vinho já pronto dentro de uma garrafa e que produz as famosas borbulhas) já havia sido observado desde a antiguidade, mas sem que se entendesse a sua causa. Nas alcovas de seu abade de Hautviller, Dom Pérignon domesticou a potência do gás e desenvolveu a técnica da chamada "assemblage" (uma vez pronto, o vinho é misturado com outros lotes de qualidade e estilos diferentes, com objetivo de se alcançar a combinação ideal), priorizando a seleção das uvas.
Do século 17 até os tempos modernos, o prestígio do champagne sempre se manteve em ascensão, conquistando desde os súditos mais ricos da aristocracia até as cabeças coroadas - dentre estas, foi objeto da mais fervorosa admiração de ninguém menos que Napoleão Bonaparte (1769-1821) e de sua esposa Joséphine (1763-1814).
 A região de Champagne, na França, é a única no mundo que pode dar o nome de champagne aos seus espumantes. Nem mesmo outras regiões da França podem chamar assim seus vinhos espumantes. |
Sem o champagne, nem pense em promover festas grandiosas. Toda comemoração importante requer a bênção das borbulhas mágicas. No que depender da tecnologia e da arte que as grandes casas envolvem na sua produção, a satisfação está garantida. Com o passar dos séculos, estas casas adquiriram um grande poder de fogo, controlando sempre a sua produção por meio de estoques reguladores (na Veuve Clicquot estão estocadas nada menos que 40 milhões de garrafas).
O vinho sempre despertou o fascínio pelos seus efeitos e pelo glamour que o cerca. Seu preço também é digno de admiração. O verdadeiro champagne oriundo desta região francesa demarcada e superprotegida legalmente, desembarca nas lojas brasileiras a preços que impõem respeito, custando em média US$ 45 (R$ 135,00) a garrafa de 750 ml.
Pois merece! Pergunte ao casal da nossa história se não valeu a pena. Quando se abre uma garrafa de champagne, o coração dispara, não só pelo grau de dificuldade enfrentado para remover a rolha, mas também devido à emoção que despertam essas borbulhas admiráveis.