
Língua, tripa, testículo, fígado, moela. Alguns destes nomes dão arrepio só de ouvir, mas ainda causam mais estranhamento quando lidos no cardápio de um restaurante. A cultura gastronômica brasileira não simpatiza muito com a ideia de se aproveitar de todas as partes dos animais, mas o fato é que uma nova onda gastronômica promete revirar o estômago de quem estiver disposto a se despir de preconceitos.
Muitos estabelecimentos passaram a oferecer pratos com miúdos, que incluem os órgãos internos dos animais, além de outras partes menos comuns, como cérebro, rabo ou bochecha. De acordo com o chef Benny Goldenberg, do restaurante Mangiare, além de nutritivos, os miúdos são muito saborosos quando bem preparados e apresentados. Antes da preocupação com a limpeza, corte e preparo da peça, ele afirma que é preciso atentar também para a procedência. “O miúdo é um órgão do animal, dependo de como ele é abatido, ele sente mais”, analisa.
O chef Alencar Ribeiro, do restaurante Diversità Bistro, acrescenta que os miúdos merecem cuidados especiais no cozimento e também na apresentação. “Geralmente são carnes escuras, por isso é preciso montar uma combinação de cores para garantir uma leveza visualmente”.
De tudo um pouco
O fígado de boi e o coração de galinha, segundo o chef, são os miúdos que mais passam “desapercebidos” ao olhar criterioso do brasileiro, e acabam indo para o prato com mais facilidade. “A língua tem um sabor muito gostoso quando bem feita, assim como o rim de boi e as tripas de galinha”, indica. A língua, inclusive, é o miúdo preferido do chef, e pode ser feita de diversas formas, como à parmegiana, como pastrami, empanada ou como carpaccio, segundo indica o especialista.
Goldenberg ressalta que, fora do Brasil, também são comuns pratos com timo, uma glândula bovina, geralmente feita na churrasqueira no Uruguai; assim como o cérebro e a bochecha bovina, bastante comum nos cardápios franceses.
Segundo o chef, o brasileiro ainda não aceita este tipo de ingrediente por dois motivos distintos. “O primeiro é o sabor, porque o preparo exige técnica culinária para perder o gosto ferroso, que não agrada muito. O segundo ponto tem a ver com a questão da ‘carne de segunda’, pois temos no Brasil a ‘cultura do filé mignon’. O que não é nobre não é servido”.
O chef acredita que justamente por isso essa moda pode pegar. “Estamos começando a aprender, cada vez mais, a não desperdiçar. Somos um dos maiores produtores de carne do mundo, por consequência, grandes produtores de miúdos também”.
Na opinião de Alencar, muitas pessoas rejeitam os miúdos, até mesmo sem provar, por uma questão de hábito. “Algumas pessoas nunca comeram esse tipo de comida dentro do âmbito familiar. Mas se você der o prato e não contar o que é, podem até acabar gostando”, afirmou.
Do lixo ao luxo
Por serem consumidos em menor escala, os miúdos nem sempre são encontrados facilmente. Não à toa, só são servidos sob encomenda em alguns estabelecimentos, e, dependendo da iguaria, são apresentados em preços bem salgados. “Pela dificuldade de se achar uma boa peça e pela falta de cultura de manejo dessas partes, acabam já chegando ao restaurante com um preço caro”, enfatiza Goldenberg, que já chegou a provar um menu degustação com cinco tipos de miúdos por R$ 106. “Muito bem pago, pagaria de novo. São partes muito apreciadas, tenras e saborosas”.
Um exemplo de “ascensão social” entre as partes mais rejeitadas do boi, na opinião de Alencar, é o rabo. “A rabada há quatro anos atrás era comprada em qualquer lugar. Mas depois que virou moda ficou mais cara, e você passa a encontrar ela de todo jeito, no ragu, no nhoque, ou com agrião”.
Se depender da criatividade de alguns chefs, outras partes dos animais sairão de do anonimato e entrarão de vez para o menu fixo, com toda muito sabor e criatividade.
- Rosbife de língua: o prato é um dos destaques do Pirajá, vendido a R$ 21. Av. Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros, são Paulo. Tel.: (11) 3815-6881. Horário de funcionamento: segunda a quarta, das 12h às 1h. Quinta a sábado, das 12h às 2h. Domingo: 12h às 19h Foto: Divulgação
- Arroz de rabada: o prato é feito com rabada cozida em molho roti, acompanhado de cubos de tomate, cebola e ovos de codorna. Do Bar Original. Preço: R$ 41,50. R. Graúna, 137, Moema, São Paulo. Tel.: (11) 5093-9486. Horário de funcionamento: segunda a quarta, das 17h30 às 2h. Quinta e sexta, das 17h30 às 3h, sábados, das 12h às 3h, domingos, das 12h às 22h Foto: Divulgação Veja receita
- Brusquetta toscana: a opção do restaurante Mangiare é preparada com fígado ao vinho do porto, radíquio, panceta e vinagrete de ervas. Custa R$ 12 e foi criada pelo restauranter Benny Goldenberg . Av. Imperatriz Leopoldina, 681, Vila Leopoldina, São Paulo. Tel.: 3034-5074. Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 16h e das 19h às 0h Foto: Divulgação
- Arroz de rabada: esta é a versão do restaurante Adega Santiago, vendida a R$ 42. Entre os ingredientes principais estão a rabada desfiada, arroz cozido no próprio caldo e agrião. R. Sampaio Vidal, 1072, Jardim Paulistano, São Paulo. Tel.: (11) 3081-5211.Horário de funcionamento: segundas, de 12h às 15h e de 18h às 23h, terça a quinta de 12h às 15h e de 18 a 0h; sexta e sábado de 12h as 0h30; e domingo de 12h às 22h. O prato é servido em todos os horários Foto: Divulgação
- Pork Belly: a barriga de porco é a sugestão do Evviva Restobar, elaborada pelo chef Caio Barcellos. O prato é fixo no cardápio e custa R$ 32. É composto por pancetta de porco cozida lentamente, purê de milho assado, manjericão e legumes da roça tostados. R. Joaquim Távora, 1245, Vila Mariana, São Paulo. Tel.: 3569-6139. Horário de funcionamento: terça a sexta das 18h à 01h e sábado das 13h à 01h. Domingo das 13h00 às 20h Foto: Divulgação
- Schlachtplatte (Chucrute Garni): a sugestão é do restaurante Konstanz, elaborado pela chef Anna Meireles. Custa R$ 129 e serve 3 pessoas. Está no cardápio fixo do restaurante. É um prato típico alemão composto de joelho e carré suíno, salsichão Schublig, salsicha de vitela, Blutwurst (embutido), batatas cozidas e chucrute. Av. Aratãs, 713, Moema, São Paulo. Tel.: 5543-4813. Horário de funcionamento: de segunda a sábado, das 12h às 1h; domingos, das 12h às 18h Foto: Divulgação
- Coração de boi recheado com frutas: criado pelo chef Alencar Ribeiro, do restaurante Diversità Bistro,o prato traz um coração inteiro de boi recheado com mini-legumes e frutas. O prato está disponível sob reserva. R. Haddock Lobo, 1014, Jardins. Tel.: 2737-4009. Horário de funcionamento: segundas, das 12h às 15h; terça a sexta, das 12h às 15h e das 20h às 00; sábados, das 13h às 16h e 20h às 00h Foto: Divulgação Veja receita
- Creme de gengibre com miúdos de pato e milho sauteé: sugestão do chef Alencar Ribeiro, do Diversità Bistro. Disponível apenas sobre reserva, pois não faz parte do menu fixo do estabelecimento. R. Haddock Lobo, 1014, Jardins. Tel.: 2737-4009. Horário de funcionamento: segundas, das 12h às 15h; terça a sexta, das 12h às 15h e das 20h às 00; sábados, das 13h às 16h e 20h às 00h Foto: Divulgação Veja receita
- Barriga de porco: a versão do prato, criada pelo chef Rafael De Cara, é do restaurante Pasta D’autori do Chef e leva pimentão, sálvia e páprica. R. Prof. Atílio Innocenti, 743, Itaim Bibi, São Paulo. Tel.: 3044-0615/3044-2362. Horário de funcionamento: terça a sexta-feira, das 12h às 15h; quinta a sábado, das 19h às 23hs; sábados também para almoço, das 12h às 15h e domingos das 12h às 17h Foto: Divulgação Veja receita
- Rabo de Buey al Pedro Ximenez: trata-se de uma rabada desfiada com purê de gergelim. Custa R$ 28 e é a sugestão do bar Venga! R. Delfina, 196, Vila Madalena, São Paulo. Tel.: (11) 3097-9252. Horário de funcionamento: segunda, das 18h à 1h. Terça a quarta, das 18h às 2h. Quinta, das 18h às 3h. Sexta e sábado, das 12h às 3h. Dom, das 12h às 18h Foto: Divulgação
- Carrillera de Buey: o prato é feito a base de bochecha de boi ao vinho tinto com purê de mandioquinha e “trocitos” de chorizo. Custa R$ 27 e é opção oferecida pelo bar Venga!. A sugestão foi criada pelo chef Rafa Costa e Silva. R. Delfina, 196, Vila Madalena, São Paulo. Tel.: (11) 3097-9252. Horário de funcionamento: segunda, das 18h à 1h. Terça a quarta, das 18h às 2h. Quinta, das 18h às 3h. Sexta e sábado, das 12h às 3h. Dom, das 12h às 18h Foto: Sergio Pagano / Divulgação
- Bollito misto: criado em 1956, o Bollito é um cozido italiano preparado com diferentes variedades de carnes de boi, ave e porco – língua defumada, cottechino, paleta de vitela, músculo, carne seca, peito de frango caipira e zampone guarnecidos por batata doce, cenoura, cebolinha, mandioquinha, repolho, raiz forte (fresca), mostarda di Cremona (frutas cristalizadas) e salsa verde. O prato é servido no Parigi às quartas-feiras e domingos por de R$ 90. R. Amauri, 275, Itaim, São Paulo. Tel.: (11) 3167-1575 Foto: Tadeu Brunelli / Divulgação
- Lâminas de língua de boi: a sugestão do restaurante Brasil a Gosto é preparada com salpicão, brotos e crocante de mandioquinha. O valor do prato é de R$ 31. R. Professor Azevedo do Amaral, 70 – Jardim Paulistano. Tel.: (11) 3086-3565 Foto: Divulgação Veja receita

